9 de agosto de 2013

Sentimento do Mundo - Carlos Drummond de Andrade


“Tenho apenas duas mãos/e o sentimento do mundo”. Essa passagem antológica abre o terceiro livro de Drummond, Sentimento do Mundo, lançado em 1940. Imerso em sua época, as ditaduras, o nazismo e a segunda guerra fazem parte do eixo temático do livro, que oscila entre cidade e interior, atualidade e memórias e o indivíduo e o mundo – tema este presente desde o primeiro livro de Drummond, com sua também abertura antológica, o Poema de Sete Faces.

Poema de Sete Faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

De certo modo, a divisão de estrofes de Drummond sempre foi a chave para ler seus poemas. Os versos livres, as rimas ausentes e a linguagem coloquial trazem consigo profundo lirismo e alguma ironia, quase sempre estabelecendo a relação do eu/mundo interior com mundo exterior, carregando todos os seus fantasmas. Nesse sentido, o poema mais conhecido talvez seja a Confidênciado Itabirano. E parar lutar contra o que hoje é fotografia, mas ainda dói, vem a busca de um vínculo com o que está fora do eu. Em Poema da Necessidade isso é feito pela repetição do “é preciso”, mas concluindo pelo fim do mundo. Entre todas as possibilidades que a linguagem permite, criar mil mundos novos, o desfecho do poeta é o fim de tudo, de tudo que aprisiona e oprime (embora, de certa forma, anuncie um mundo novo em O Operário do Mar). As preocupações, inquietações e imposições da vida moderna – repetidas constantemente, não poderiam mesmo ter outro fim.

Poema da necessidade

É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
É preciso comprar um rádio,
É preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbedo,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens,
É preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.

Assim, vemos o homem sempre carregando seu passado: a família, a cidade natal, a formação moral, o medo e a angústia, sempre o medo e a angústia. Em Sentimento do Mundo isso se depara com a política ditatorial, a luta pelo poder, a ganância, a corrupção, a diferença social, a imposição comportamental e a violência. Inocentes do Leblon não poderia ser mais atual com seu retrato dos que querem ignorar. Mas se a poesia cintila com a possibilidade de servir como meio de libertação, inclusive com função de participação social, não é otimista o desfecho que ela traz. Reviver os fantasmas e raciocinar a partir do medo e do autoritarismo nos faz nos compreendermos melhor, mas não resolve o problema. É negro o amanhecer.

Sentimento do mundo

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microcopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer.

Esse amanhecer
mais noite que a noite.

3 comentários:

  1. Eu tenho uma cópia deste livro e sempre estou lendo um poema do Drummond, faz bem para alma.

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  2. Esse é um dos melhores livros do Drummond.

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